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O cachorro que salvou Dom Bosco Pastoral
Grígio, o cachorro protetor de Dom Bosco

Extraído do livro “Memórias do Oratório São Francisco de Sales”,

escrito pelo próprio Dom Bosco

 

“O cão Grígio (cinzento em intaliano) foi assunto de muitas conversas e hipóteses várias. Muitos de vós o haveis visto e até acariciado. Deixando agora de lado as histórias peregrinas que dele se contam, vou expor a pura verdade.

 

Os freqüentes atentados de que eu era alvo aconselharam-me a não andar sozinho ao ir à cidade de Turim ou de lá voltar. Àquela época o manicômio era o último edifício nas bandas do Oratório. O restante era terreno infestado de espinhos e acácias.

 

Numa tarde escura, já bastante adiantada, regressava para casa, com certo medo, quando vejo ao meu lado um enorme cão, que à primeira vista me assustou; como, porém, não me ameaçava agressivamente, pelo contrário, fazia-me festa como se fosse seu dono, travamos de imediato boas relações, e ele me acompanhou até o Oratório. O que aconteceu naquela tarde repetiu-se muitas outras vezes, de modo que posso dizer que o Grígio me prestou importantes serviços. Vou expor alguns.

 

Em fins de novembro de 1854, numa tarde escura e chuvosa, voltava da cidade, e para não andar muito tempo pelo descampado, vinha pela rua que da Consolata leva ao Cottolengo. Em determinado ponto percebi que dois homens caminhavam a pouca distância na minha frente. Aceleravam ou diminuíam o passo, toda vez que eu acelerava ou diminuía o meu. Quando, para não me encontrar com eles, tentava passar para a parte oposta, eles com grande habilidade colocavam-se à minha frente. Quis voltar sobre meus passos, mas não houve tempo; dando dois pulos para trás, e sem dizer palavra, lançaram-me um manto sobre o rosto. Fiz quanto pude para não me deixar envolver, mas debalde; antes, um deles conseguiu amordaçar-me com um lenço. Queria gritar, mas já não podia. Nesse preciso momento apareceu o Grígio que, urrando como um urso, lançou-se com as patas contra o rosto de um, com a boca escancarada contra o outro, de maneira que mais lhes convinha envolver o cão do que a mim.

 

– Chame o cachorro! – puseram-se a gritar, espantados.

– Chamo, sim, mas deixem os transeuntes em paz.

– Chame logo! – exclamaram.

 

O Grígio continuava a uivar como lobo ou urrar como urso enfurecido. Eles retomaram o caminho, e o Grígio, sempre ao meu lado, acompanhou-me até chegar à obra Cottolengo. Refeito do susto e recuperado com um bom copo de vinho que a caridade da obra oferece oportunamente às visitas, regressei ao Oratório bem escoltado.

 

Nas noites em que não estava acompanhado de alguém, assim que passava as últimas casas via despontar o Grígio de algum lado da rua. Muitas vezes o viram os jovens do Oratório, e certa vez serviu-lhes de entretenimento. Os jovens da casa viram-no entrar no pátio. Alguns queriam bater nele, outros atirar-lhe pedras.

 

– Não o molestem – disse José Buzzetti –, é o cão de Dom Bosco.

 

Então puseram-se todos a acariciá-lo de todas as maneiras e acompanharam-no até o refeitório, onde eu estava ceando com alguns clérigos e padres, e com minha mãe. Ante tão inesperada visita, ficaram todos amedrontados.

 

– Não tenham medo – disse –, é o meu Grígio, deixem-no vir.

 

Realmente, dando uma longa volta ao redor da mesa, veio ter comigo, fazendo festa. Eu também o acariciei e ofereci-lhe sopa, pão e carne, mas ele recusou. Mais: sequer cheirou a comida.

 

– Que queres então? – perguntei.

 

Ele apenas abanou as orelhas e moveu a cauda.

 

– Come, ou bebe, ou então mostra-te contente – concluí.

 

Continuando então a dar sinais de satisfação, apoiou a cabeça sobre meus joelhos, como se quisesse falar me ou dar-me boa-noite; em seguida, com grande entusiasmo e alegria, os meninos o acompanharam para fora. Lembro-me que naquela noite havia regressado tarde para casa e que um amigo me havia trazido em sua carruagem.

 

A última vez que vi o Grigio foi em 1866, quando ia de Murialdo a Moncucco, à casa de Luís Moglia, meu amigo. O pároco de Buttigliera quis acompanhar-me por bom trecho de caminho, e isso fez com que me surpreendesse a noite no meio da estrada.

 

– Oh! se tivesse aqui o meu Grígio – disse de mim para mim –, que bom que seria!

 

Assim dizendo, subi a um prado para desfrutar do último raio de luz. Naquele momento o Grígio veio correndo com grandes demonstrações de alegria em minha direção, e acompanhou—me pelo trecho de caminho que ainda devia percorrer, uns três quilômetros. Chegado à casa do amigo, que me estava esperando, advertiram-me que desse uma volta para que meu cachorro não se engalfinhasse com dois enormes cães da casa.

 

– Vão-se estraçalhar, se se pegam – dizia Moglia.

 

Conversei com toda a família e fomos cear, ficando meu companheiro a descansar num canto da sala. Terminada a refeição, disse o amigo:

 

– Vamos dar de comer a teu cachorro.

 

E tomando um pouco de comida, levou-a ao cão, mas não o encontrou, por mais que o procurasse por todos os cantos da sala e da casa. Todos ficaram admirados porque nenhuma porta, nenhuma janela fora aberta, e os cães não deram nenhum alarme. Procuraram o Grígio nos quartos de cima, mas ninguém o encontrou.

 

Foi essa a última notícia que tive do cão cinzento, objeto de tantas perguntas e discussões. Jamais soube de seu dono. Sei apenas que esse animal foi para mim uma verdadeira providência [388] nos muitos perigos em que me vi metido. ”

 

Fonte: Livro “Memórias do Oratório São Francisco de Sales