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Setembro, o mês da Bíblia Pastoral
Setembro, o mês da Bíblia

Adaptação e texto - Pe. Edilson Agreson da Silva

 

Já é setembro, mês dedicado à Palavra de Deus! Com esta intenção, a Igreja pretende colocar a Palavra de Deus em evidência, tanto no processo de formação, quanto de celebração e de compromisso missionário. Ao dedicarmos um mês especial à Bíblia, não afirmamos que o cristianismo é uma religião do livro, mas da Palavra de Deus: de um Deus que busca o ser humano e dialoga com seu povo; que deseja encontrar-se com a pessoa humana para fazê-la participante de sua vida divina. Não porque Ele tivesse necessidade de nós, mas porque nós precisamos dele.

 

A Igreja no Brasil dedica todo o Mês de Setembro à Bíblia. Sem dúvida, é uma iniciativa muito salutar. A motivação provém do fato da Igreja celebrar, no dia 30 de setembro, a memória do grande santo e doutor da Igreja, São Jerônimo[1], que, a pedido do Papa Dâmaso (366-384), preparou uma excelente tradução da Bíblia em latim, a partir do hebraico e do grego; a chamada Vulgata. Foi um trabalho gigantesco que demandou cerca de 35 anos nas grutas de Belém, onde ele realizava esse ofício, vivendo uma austera vida de oração e penitência. São Jerônimo dizia que quem não conhece os Evangelhos não conhece Jesus.

 

Entre os diversos meios para o encontro com o Senhor, a Palavra recebe destaque particular, pois é Ele mesmo que fala quando se leem as Sagradas Escrituras na Igreja, tornando a Palavra viva, eficaz e eterna. Ela deixa de ter simples caráter doutrinário ou orientativo, pois nela podemos encontrar-nos com Alguém, que tem identidade, rosto e nome: Jesus Cristo, o Verbo (a Palavra) que se fez carne e habitou entre nós (Jo 1, 14). Por isso a Igreja afirma: “Sempre Cristo está presente em sua Palavra… A Palavra de Deus, portanto, constantemente anunciada na Liturgia, é sempre viva e eficaz pelo poder do Espírito Santo e manifesta aquele amor ativo do Pai que jamais deixa de agir entre os homens e as mulheres” (Bento XVI acrescenta no documento Verbum Domini: “Que a Bíblia não permaneça uma Palavra do passado, mas uma Palavra viva e atual” (VD 5).

 

“Toda Escritura é inspirada por Deus e é útil para ensinar, para argumentar, para corrigir, para educar conforme a justiça” (2Tm 3,16). A Bíblia foi escrita por pessoas chamadas e escolhidas por Deus e que foram inspiradas através do Espírito Santo. Ela revela o projeto de Deus para o mundo; serve para que todos possamos crescer na fé e levar uma vida de acordo com o projeto de Deus. Por isso, ela é a grande “Carta de Amor” de Deus à Humanidade.

 

A Palavra de Deus nos revela o rosto de Deus e seu mistério. Ela é a história do Deus que caminhou com seu povo e do povo que caminhou com seu Deus. A Bíblia tem uma longa história, desde nossos pais e mães da fé (Abraão e Sara, Isaac e Rebeca, Jacó Lia e Raquel) passando por Moisés, pelos Profetas, até a vinda do Messias, e, por fim, a morte do último dos Doze Apóstolos quando foi escrito o último livro da Bíblia (o Apocalipse, escrito no final do I século). A Palavra de Deus demorou em torno de dois mil anos para ser escrita. Muitas pessoas fizeram parte desta história: homens, mulheres, crianças, jovens, anciãos.... Por isso, podemos dizer que a Bíblia é um livro feito em mutirão.

 

Passaram-se os tempos, os anos, mudaram muitas coisas, impérios cresceram e caíram, tantas ideias foram superadas, mas a Palavra de Deus continua “viva e eficaz” (Hb 4,12), pois “ela permanece para sempre” (1Pd 1,25). Embora o mundo busque outros caminhos, sempre existiram pessoas e comunidades que foram fiéis, que buscaram nas Palavras Sagradas a fonte para sua inspiração, para continuar vivendo e realizando o projeto de Deus.

 

Mais do que história, a Bíblia é portadora de uma mensagem. Ela é capaz de denunciar e anunciar. Ela denuncia as injustiças, os pecados, as situações desumanas, de pobreza, exploração e exclusão em que vivem tantos irmãos nossos. Foi isso que fizeram os Profetas e também Jesus Cristo em algumas ocasiões, pois toda situação de injustiça e pecado é contrária ao projeto de Deus. Mas a Bíblia é, sobretudo, um livro de anúncio. Ela proclama a boa notícia vinda de Deus: Ele nos ama e nos quer bem! Ele é o Deus que caminha conosco, que está ao nosso lado e nos dá força e coragem! Foi Deus que enviou ao mundo seu Filho Jesus Cristo. Ele veio nos trazer a Boa Notícia do Reino; veio nos trazer a Salvação, o perdão dos pecados. É através da fé em Jesus Cristo que nos tornamos filhos de Deus.

 

Todos podemos e devemos ler, estudar e conhecer a Palavra de Deus. É certo que na Bíblia encontramos alguns textos difíceis. A Bíblia mesmo diz isso (2Pd 3,16¸ At 8,30-31; Dn 9,2; etc). Certas passagens foram escritas dentro de uma realidade diferente da nossa. Precisam ser interpretadas e atualizadas. Por isso, quando não entendemos um texto, é melhor passar adiante, buscar outra passagem. O Pe. Zezinho nos ensina cantando: “Dai-me a palavra certa, na hora certa, do jeito certo e para a pessoa certa”. Na verdade, todo mês devia ser Mês da Bíblia; todo dia devia ser Dia da Bíblia. Por isso, a Bíblia não pode ser apenas um ornamento em nossa casa. A Palavra de Deus deve ser o nosso alimento de cada dia e buscar nela o sustento para a nossa vida.

 

Em setembro de 2018, o tema que norteará as reflexões propostas para o mês da Bíblia intitula-se "Para que n'Ele nossos povos tenham vida", o lema será "A sabedoria é um espírito amigo do ser humano" (Sb 1,6). O Texto-Base se propõe a auxiliar a leitura e o estudo da primeira parte literária do Livro da Sabedoria (Sb 1,1–6,21).

 

O Livro da Sabedoria é um dos maiores livros deuterocanônicos da Bíblia. Possui 19 capítulos. É normalmente atribuído a Salomão, porém estudos indicam que foi escrito por um judeu de Alexandria. Alexandria era um importante centro político e cultural grego, e contava com cerca de 200.000 judeus entre seus habitantes. A cultura grega, com suas filosofias, costumes e cultos religiosos, além da hostilidade que, às vezes, incluía perseguição aberta, constituíam uma ameaça constante à fé e à cultura do povo judaico que habitava no Egito. Para não serem marginalizados da sociedade, muitos deixavam os costumes e até mesmo a fé, perdendo a própria identidade para se conformar a uma sociedade idólatra e injusta.

 

No período entre 2016 e 2019, conforme proposta do Documento de Aparecida, a nossa Igreja está aprofundando a segunda parte da proposta pastoral: “Ser Discípulos Missionários de Jesus Cristo, para que nele nossos povos tenham vida”. O tema central durante estes quatro anos é sempre o mesmo: “em defesa da vida”. Eis o esquema do Mês da Bíblia nesses quatro anos: 2016: A Profecia em defesa da vida – livro do profeta Miqueias; 2017: A Comunidade em defesa da vida – 1ª carta os Tessalonicenses; 2018: A Sabedoria em defesa da vida – livro da Sabedoria; 2019: O Amor em defesa da vida – 1ª carta de São João.

 

A Sabedoria é um espírito amigo do ser humano” (Sb 1,6). Ou seja, a Sabedoria é uma expressão da amizade de Deus por nós, seres humanos. Uma outra ideia teológica fundamental deste livro é a personificação da Sabedoria divina. Enquanto, para os gregos, a sabedoria era um meio para chegar ao conhecimento e contemplação divina, para o autor, ela é uma proposta de vida, um alguém que está presente em toda a vida e que preside à vida toda; que fala, estimula e argumenta. A sabedoria é assim porque é o reflexo da vontade e dos desígnios de Deus (9,13.17); porque partilha da própria vida de Deus e está associada a todas as suas obras (8 ,3-4) e tem a ver com o espírito de Deus (1,6; 7,7.22-23; 9,17); é ela que torna a religião judaica muito superior às religiões idólatras (cap. 13-15). Numa palavra, a sabedoria é um outro modo da revelação de Deus; isto é, o próprio Deus atua na História de Israel (cap. 11-12; 16-19) e no mundo criado por meio da sua sabedoria. Ela prefigura o amor e a sabedoria de Deus que culmina em Jesus Cristo, também chamado "Sabedoria de Deus".

 

Conscientes do significado fundamental da Palavra de Deus referida ao Verbo eterno de Deus feito carne, único salvador e mediador entre Deus e o homem, e escutando esta Palavra, somos levados pela revelação bíblica a reconhecer que ela é o fundamento de toda a realidade. O Prólogo de São João afirma, referindo-se ao Logos divino, que “tudo começou a existir por meio Dele, e, sem Ele, nada foi criado” (Jo 1, 3); de igual modo, na Carta aos Colossenses, afirma-se, aludindo a Cristo “primogênito de toda a criação” (1, 15), que “tudo foi criado por Ele e para Ele” (1, 16). E o autor da Carta aos Hebreus recorda que “pela fé conhecemos que o mundo foi formado pela palavra de Deus, de tal modo que o que se vê não provém das coisas sensíveis”.

 

A realidade humana, criada por meio do Verbo, encontra a sua figura perfeita precisamente na fé obediente de Maria. Desde a Anunciação ao Pentecostes, vemo-La como mulher totalmente disponível à vontade de Deus. É a Imaculada Conceição, Aquela que é “cheia de graça” de Deus (cf. L c 1, 28), incondicionalmente dócil à Palavra divina (cf. L c 1, 38). A sua fé obediente face à iniciativa de Deus plasma cada instante da sua vida. Virgem à escuta, vive em plena sintonia com a Palavra divina; conserva no seu coração os acontecimentos do seu Filho, compondo-os por assim dizer num único mosaico (cf. L c 2, 19.51).

 

Para nós, Família Salesiana, a leitura e a meditação da Palavra de Deus, é inspiração e verdade. Somos família reunidos antes de mais nada pela Palavra do Deus vivo. A Palavra ouvida com fé é para nós fonte de vida espiritual, alimento da oração, luz para conhecer a vontade de Deus nos acontecimentos e força para viver com fidelidade a nossa verdadeira vocação de cristãos. Assim sendo, tendo diariamente em mãos a Sagrada Escritura, acolhemos, como Maria, a Palavra e a meditamos em nosso coração para fazê-la frutificar e anunciá-la com zelo.

 

Portanto, para poder rezar em verdade, para saber o que deve fazer para levar sua própria contribuição ao Reino de Deus, a Família Salesiana deve pôr-se em escuta, deixar Deus falar-nos.

 

Mediante todos os acontecimentos salvíficos, Deus fala de seu desígnio de salvação centralizado em Jesus Cristo. A sua Palavra, porém, é substancialmente anunciada por escrito na Sagrada Escritura: e ela, portanto o povo de Deus (e nossas comunidades religiosas) é orientada de modo especial, segundo o explícito apelo do decreto Perfectae Caritatis e da Constituição Dei Verbum.

 

A Palavra de Deus deve tocar nossos ouvidos (escutá-la), descer ao nosso coração (acolhê-la), passar pelas nossas mãos (praticá-la), sair de nossa boca (proclamá-la). Isso faz brotar quatro sérias exigências: o dever de nos educarmos ao silêncio, reconhecer a nossa pobreza radical, testemunhar a Palavra e empenharmo-nos em difundi-la com zelo. 

 

Contemplando na Mãe de Deus uma vida modelada totalmente pela Palavra, descobrimo-nos também nós chamados a entrar no mistério da fé, pela qual Cristo vem habitar na nossa vida. Como nos recorda Santo Ambrósio, cada cristão que crê, em certo sentido, concebe e gera em si mesmo o Verbo de Deus: se há uma só Mãe de Cristo segundo a carne, segundo a fé, porém, Cristo é o fruto de todos.  Portanto, o que aconteceu em Maria pode voltar a acontecer em cada um de nós diariamente na escuta da Palavra e na celebração dos Sacramentos.

 

Que cada um dos nossos dias seja plasmado pelo encontro renovado com Cristo, Verbo do Pai feito carne: Ele está no início e no fim de tudo, e Nele todas as coisas subsistem. Façamos silêncio para ouvir a Palavra do Senhor e meditá-la, a fim de que a mesma, através da ação eficaz do Espírito Santo, continue a habitar e a viver em nós e a falar-nos ao longo de todos os dias da nossa vida. Desta forma, a Igreja sempre se renova e rejuvenesce graças à Palavra do Senhor, que permanece eternamente. Assim também nós poderemos entrar no esplêndido diálogo nupcial com que se encerra a Sagrada Escritura: “O Espírito e a Esposa dizem: “Vem”! E, aquele que ouve, diga: “Vem”! (…) O que dá testemunho destas coisas diz. “Sim, Eu venho em breve”! Amém. Vem, Senhor Jesus” (Ap 22, 17.20).

 

A Palavra de Deus é um tesouro precioso que podemos encontrar nas nossas vidas. Quando baseamos a nossa existência na Bíblia, somos verdadeiramente felizes. Deus se revela a nós através da Sua Palavra. Com a ajuda da Bíblia, podemos diferenciar o certo do errado, e aprender a viver de maneira que agrada a Deus. 

 

Usem o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus.


[1] São Jerônimo (347-420) - chamado de “Doutor Bíblico”, nasceu na Dalmácia e educou-se em Roma; é o mais erudito dos Padres da Igreja latina; sabia o grego, latim e hebraico. Viveu alguns anos na Palestina como eremita. Em 379, foi ordenado sacerdote pelo bispo Paulino de Antioquia; foi ouvinte de São Gregório Nazianzeno e amigo de São Gregório de Nissa. De 382 a 385 foi secretário do Papa São Dâmaso. Pregava o ideal de santidade entre as mulheres da nobreza romana (Marcela, Paula e Eustochium) e combatia os maus costumes do clero. Na figura de São Jerônimo destacam-se a austeridade, o temperamento forte, o amor a Igreja e à Sé de Pedro.

 

“Quão saborosas são para mim vossas palavras, mais doces que o mel à minha boca” (Sl 118, 103)

 

Fonte: Inspetoria São João Bosco